FRACASSO do CNU na área de Tecnologia da Informação: Aposta e Achismo do alto escalão do MGI confirmou o descaso com a carreira de Tecnologia da Informação Federal e confirmou a evasão recorde e desinteresse histórico para o cargo em pleno ano de 2026.
A baixa adesão à carreira de Analista em Tecnologia da Informação (ATI) no Concurso Público Nacional Unificado (CNU) reforçou o alerta da administração pública federal que a ANATI já vinha falando desde 2023. Números do próprio Governo que dizem respeito ao cargo de ATI indicam que cerca de 70% dos candidatos convocados ao longo das 8 chamadas do CNU optaram por não assumir o cargo, índice considerado elevadíssimo e sobrenatural para concursos públicos federais. Dentre o número estimado de 1200 candidatas e candidatos aprovados no CNU, mais de 700 disseram não para o cargo de ATI.
O cenário ficou ainda mais evidente após o governo anunciar a prorrogação da validade da primeira edição do CNU, sem NENHUMA POSSIBILIDADE de incluir a carreira de ATI entre as que poderão convocar novos candidatos. Segundo o próprio Ministério da Gestão e Inovação (MGI), todos os aprovados no cadastro de reserva já foram chamados, mas o número efetivo de profissionais dispostos a assumir o cargo ficou muito abaixo do esperado.
O episódio expõe um paradoxo dentro do próprio governo: enquanto a transformação digital é apresentada como prioridade estratégica e a alta gestão segue viajando mundo afora para erguer prêmios relacionados ao Governo Digital e as políticas de tecnologia da informação implementadas no país, o Estado fecha os olhos para a resolução de problemas estruturais com a decisão da alta cúpula do MGI ignorando estudos, recomendações de órgãos de controle, recomendações da ONU, do IPEA e do próprio Observattório Nacional, criado no âbito do MGI, com a fala negacionista de secretários que seguem enfrentando dificuldades para preencher os cargos responsáveis por viabilizar essa agenda.
Para o Analista em Tecnologia da Informação e gestor de políticas públicas que envolvem tecnologia da informação, Luiz Alexandre, o Estado tem dificuldade para competir com o mercado na atração de profissionais de tecnologia. "Os números mostram que o problema não está no concurso, mas em uma questão estrutural: hoje o Brasil não consegue competir com o mercado de tecnologia na atração de profissionais qualificados e tampouco concorrer com outras carreiras de TI da administração pública federal. Isso é ainda mais preocupante porque essa carreira fiscaliza contratos que movimentam mais de 12 bilhões de reais todos os anos, e quando essas vagas ficam vazias, o Estado perde capacidade técnica justamente em uma área estratégica para o país, que tanto vem entregando resultados, eficiência e economia para o Governo Federal.", afirma Luiz Alexandre, que também é o presidente da Associação dos Analistas em Tecnologia da Informação (ANATI).
Uma carreira estratégica com baixa atratividade
Os ATIs são responsáveis por coordenar e comandar as funções estratégicas que envolvem políticas de infraestrutura digital do Estado. Esses servidores participam da gestão e fiscalização de contratos que movimentam bilhões de reais por ano e tornam real as entregas de políticas como: sougov, login único, conectagov, CH digital, carteira digital de trabalho, alistamento militar online, dentre os mais de 5.000 serviços públicos federais já digitalizados e entregues à popuilação e o outros 10 mil já espalhados por estados e municipos do Brasil, além é claro de atuar na proteção do estado, no desenvolvimento de sistemas, na governança digital e segurança da informação em mais 230 órgãos federais.
Apesar da relevância estratégica, a carreira enfrenta dificuldade histórica para atrair e reter profissionais. Durante as convocações do CNU em pleno 2025 e 2026, o problema ficou evidente com números escandalosos. Até agora tivemos 3 turmas para o Curso de Formação de ATIs, em 2025 foram convocados quase 500 candidatos para 300 vagas iniciais, tendo 217 iniciado o Curso de Formação e de fato somente 169 ATIs entrado em exercício no cargo. Em 2026, mais duas novas grandes chamadas para quase mais de 700 candidatos que estavam na fila do CNU, em seu Cadastro de Reservas. Foram então ofertadas 420 vagas, das quais apenas 237 foram preenchidas com pessoas interessadas em ingressar no Curso de Formação (que ainda segue risco ALTÍSSIMO das pessoas não entrarem em exercício no cargo). Todas essas informações estão acessíveis no site da ENAP, que está organizando o Curso de Formação da turma de ATIS.
A notícia de prorrogação do CNU 1ª edição, constata a realidade fria do cargo, tantas vezes alertada pelos profissionais de TI. A carreira que foi reestruturada em 2024 de maneira equivocada e com uma narrativa de aumento de 100% de saláraio para a carreira, foi difundida como mérito por gestores e secretários do MGI, dizendo ter dado mais de 100% de aumento para esses profissionais. Sempre foi uma narrativa construída por decisores do MGI, que desrespeitaram e ignoraram os estudos de mercado, de governo e de carreiras similiares qua a ANATI entregou em 2023, apostando que com a reestruturação apenas do "final da carreira", seria suficiente para preencher o déficit e "acobertar" a evasão já de 65% da carreira desde 2015. A carreira estruturada sem diálogo e imposta por secretários e gestores do MGI não foi organizada de maneira atrativa o suficiente e o cenário de hoje poderia ser muito pior, caso não fosse o esforço institucional da ENAP. Todos os 1200 candidatos aprovados para o cargo de ATI, foram chamados via caixa govbr e em diversos canais oficiais do governo, tendo ampla divulgação em âmbito nacional, e mesmo assim, foi necessário um esforço extra de servidores da ENAP para “convocar pessoalmente via ligação” os candidatos e candidatas para se inscreverem no Curso de Formação de ATI, tanto em 2025 como em 2026, havendo relatos de que alguns candidatos aprovados ainda precisaram “justificar na conversa de telefone com a ENAP” a esses responsáveis pela ligação do Governo Federal, o “porque" de não quererem fazer o curso de formação para o cargo de ATI.
Segundo a ANATI, o alto índice de evasão indica que muitos candidatos aprovados acabam optando por outras carreiras públicas ou por oportunidades no setor privado. Entre os fatores apontados pela entidade para explicar a adesão colapsal estão a remuneração e o modelo de ingresso na carreira. Há vultuosa diferença salarial em relação ao mercado de tecnologia, onde se recebe em média até 3x mais do que o governo paga atualmente, já numa comparação entre as carreiras do próprio serviço público federal, na diferença o ATI recebe 2x a menos e cada vez mais se distancia da realidade do fortalecimento da carreira para ATRAIR e claro RETER PROFISSIONAIS.
Ainda é preciso entender que o processo seletivo atual exige a participação em um curso de formação presencial em Brasília, com dedicação integral durante três a quatro meses. Nesse período, os candidatos recebem metade do salário inicial, algo em torno de R$ 5 mil mensais. Para profissionais que já atuam no setor de tecnologia, frequentemente com salários muito mais elevados e possibilidade de trabalho remoto, essa exigência acaba funcionando como um fator de desestímulo e descrédito para a decisão de ingressar ou não no cargo. Além é claro da realidade de viver com esse salário em Brasilia para “cumprir uma etapa” do concurso, que ainda não garante que o candidato ou candidata irá ser nomeado no cargo, tampouco se tem previsão de quando os candidatos agora em curso de formação, serão chamados para tomar posse do cargo, principalmente em um ano de eleição como o de 2026.
Discurso digital x realidade
A dificuldade de preencher vagas na carreira ocorre justamente em um momento em que o governo federal reforça o discurso de transformação digital e ampliação de serviços públicos digitais, além é claro de todo o fomento de Inteligência Artificial e o cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados que o governo vem priorizando com sua principal política, a que o presidente Lula batizou como “um governo para cada brasiliero”. O cenário revela uma contradição na própria estratégia de modernização do Estado.
Diante do alto risco de novas saídas, a entidade representativa da carreira defende medidas emergenciais para evitar a evasão também entre os profissionais que ingressaram recentemente no serviço público. Entre as propostas está a revisão URGENTE da tabela salarial do ATI, para que seja embasada em estudos reais e deixe de ser “apostas ou achismo de decisores do MGI”, a aceleração e regulação da progressão funcional (que ainda trava o ATI para progredir de 18 em 18 meses, principalmente aqueles que não tem cargo ou função pública) e o reposicionamento de servidores do cargo em níveis mais avançados da carreira, como forma de retenção imediata de quem já aceitou o desafio de ser ATI nas condições atuais.
Para curto prazo, especialistas apontam que será inevitável discutir a reestruturação da carreira, especialmente em relação à remuneração inicial, para tornar o cargo competitivo com o mercado de tecnologia. “Caso contrário, o risco é que novos concursos reproduzam o mesmo cenário observado no CNU: grande número de candidatos aprovados, mas poucos profissionais dispostos a assumir as vagas diante do descaso com o cargo de ATI”, finaliza Luiz Alexandre.